domingo, outubro 28, 2007

Perfeita Simetria

"Toda vez que toca o telefone
Eu penso que é você
Toda noite de insônia
Eu penso em te escrever
Pra dizer
Que o teu silêncio me agride
E não me agrada ser
Um calendário do ano passado
Prá dizer que teu crime me cansa
E não compensa entrar na dança
Depois que a música parou
A música parou (Parou!)

Toda vez que toca o telefone
Eu penso que é você
Toda noite de insônia
Eu penso em te escrever
Escrever uma carta definitiva
Que não dê alternativa
Prá quem lê
Te chamar de carta fora do baralho
Descartar, embaralhar você
E fazer você voltar"

sexta-feira, outubro 26, 2007

Olha, meu bem
se isso é assim
assaz, assado,
fica falado -
decretado, esperado:
nada deve ser dito,
agradecido,
pensado,
sentido,
olhado e
amado.

Viva a indiferença!
Mas viva pouco.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Beba do samba, bêbado Samba!

"Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedraeu choraria”
Mas eu, Boca, como semrpe perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado
Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra
...
Bebadosamba,
Meu bem.
Bebadosamba,
Também. "

segunda-feira, outubro 01, 2007

Fruit de la Passion

ter medo de cair da mangueira de menos de um metro de altura, tomar banho de bica, comer fruta do pé, dormir lendo de noitinha, dormir no colo da vó, dormir na rede com barulho de ventilador, preguicinha de domingo, separar feijão, colocar a mão na terra molhada, cheiro de jasmim, baunilha, canela, orvalho e de xampu de coco, beijinho na nuca, abraço pra sempre, dormir de pé entrelaçado, a pequena sereia, velas, livros, incensos, massagem, móbile de passarinhos, lírios, arruda, umbanda, fotografia, sebastião salgado, vinil, política, gente, luta, gente que luta, família buscapé, milkshake de café, cinema velho pseudo-cult, cafés parisienses, sebos, livrarias, cartão postal, receber cartinhas, se emocionar, chorar, chá de menta, trident de canela, pão-de-queijo com toddynho, suco de maracujá sem açúcar, limonada suíça, rotina de praia, mar, rio, cachoeira, acampar, ilha vaga-lume, lumiar, copacabana, batista campos, villejuif, pontão no lago com chocolate mentolado, catar sarará, pisar no mangue, tomar banho de chuva, andar de ônibus ouvindo música, observar a cidade, observar as pessoas, comer brigadeiro, diamante negro, amigos bons, barzinho com cerveja, sinuca com sorte e sem técnica, barbinha e óculos de jeito intelectual, sandálias hippies, saias hippies, legião urbana, música alternativa e inteligente, música instrumental, how do you do, dirigir e tomar banho ouvindo música, poesia, mario quintana, carlos drummond de andrade, pablo neruda, jane austen, steinbeck, jorge amado, galeano, che guevara, chico buarque, rodas de violão, fogueira, amizade, amor e paixão.

terça-feira, setembro 18, 2007

"Minha laranjeira verde,
por que estás tão prateada?
foi a lua desta noite,
o sereno da madrugada?
Tenho um sorriso bobo,
parecido com soluço.
Enquanto o caos segue em frente,
com toda a calma do mundo."

segunda-feira, agosto 06, 2007

Ócio.

Pausas não faltam, e preenchimento pra tantas tampouco.

Ela se diz: finito.
Ele descrê.

Viaja, para o meio do mato - apenas para encontrar-se novamente abandonada aos seus lençóis. Ela não entende como se deixou levar mais essa vez. Jura, porém, ser a última. Assim como já jurara tantas outras vezes. Nem ela acredita mais em suas próprias palavras.

Palavras escritas com pena da mais rara ave, tinta da mais requintada produção e mentira da mais deslavada.

Mentira na qual quer crer. Na qual descrê.
Da qual precisa.

"Oh, se apenas pudesse viver do ócio."

... do ócio haveria de morrer.

quarta-feira, julho 11, 2007

Papicu?

- "Olha, o senhor pega a Santos Dumont, e daí, assim que puder virar pra lá.."
- "Prali?!" pergunta o motorista de taxi, apontando pra esquerda.
- "Sim, ali, na Chevrolet. Daí, desce, e já vira na próxima pra pegar a Andrade Furtado, porque a Otávio Lobo não desce" diz a menina que, alertada sobre o cárater dos taxistas, não pestaneja ao indicar o caminho desconhecido. Repete a fórmula mágica ensinada pela tia. E reza para que não haja contratempos e perguntas embaraçosas.
- "Ih, aqui tá fechado. Esses animais, fecham a rua por tudo quanto é besteira! No outro governo não era assim não. A senhora (!) prefere que pegue a Expressa ou pelo Papicú?" indaga o nada bendito.
- "Ehh.." suspira a menina com ar de mulher, mãe de oito filhos, com a segurança de uma avó. Tem a mão no queixo, uma expressão de quem reflete seriamente os altos e baixos de cada caminho, e um olhar aflito de quem pode pôr tudo a perder. Lembra vagamente que a Expressa é a via que pegou vindo do aeroporto, do oooutro lado. Mas, se ela é lá, imagina onde seria o Papicú?! Em menos de hum segundo passam por sua cabeça os pensamentos mais absurdos, inclusive uma saudade da terra das quadras, lotes, conjuntos, blocos, tesourinhas e pontes. Ruas, pra que as quer.
- "Ah, o que o senhor acha melhor a essa hora? Esse congestionamento.."
- "Olha, não sei! Vou perguntar aqui presse entregador de pizzas!"

Se até ele pergunta, por que não arriscar:
- "Moço, o que é esse tal de Papicú?" ela diz ao sair, com desastre de 12 anos.
- "Mas minha filha?!" ele ri meio debochado "é esse bairro da sua casa!"
- "Ahh, mas isso eu sabia.. é que achei que fosse indígena e tivesse um significado.."
- "Ah, isso eu não sei não senhora!" resmunga o velho meio encabulado.
- "Tá bom. Tenha um bom dia, viu?" sorri a menina, crente que engana até ela mesma com esse ar de gente segura.

- "Preciso de um mapa" se diz ela.

terça-feira, julho 10, 2007

quarta-feira, julho 04, 2007

"Agora já passa da hora,
tá lindo lá fora
Larga a minha mão,
solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão"

Ah, o verão.

quinta-feira, junho 21, 2007

Cheio dum nada.

Volta e meia tem um romance sobre um cara que não sente. O tal do homem-massa, apático a tudo. Ele acorda, escova os dentes, trabalha, come, volta pra casa, dorme, acorda, escova os dentes.. e não vive. Todo dia é igual, e ele não percebe o tanto que as coisas andam, mudam, passam. O quanto que ele é vazio.

Mas será que ele é mesmo vazio?
Ou vazia seria eu, por pensar ter algo - ainda que apenas a consciência de não ter nada!

Deve ser deveras mais simples passar pela vida sem sentir, a acordar todo dia de manhã e - antes mesmo de abrir os olhos - já pensar: como fazer pra chegar ao fim do dia sem explodir de sentimentos? Como parar de procurar, nos murais do mundo, um anúncio merecedor de minha atenção? Como não atiçar os ouvidos em busca de algo mais interessante? Como não pensar nesse constante pensar que nos aflige?

Ou, melhor, que me aflige.. afinal, o tal do herói do filme não sente,
sinto muito.

sábado, junho 09, 2007

Sala de Espera da vida.

"Soap Opera Woman: Excuse me.
Wiley: Excuse me.
Soap Opera Woman: Hey. Could we do that again? I know we haven't met, but I don't want to be an ant. You know? I mean, it's like we go through life with our antennas bouncing off one another, continously on ant autopilot, with nothing really human required of us. Stop. Go. Walk here. Drive there. All action basically for survival. All communication simply to keep this ant colony buzzing along in an efficient, polite manner. "Here's your change." "Paper or plastic?' "Credit or debit?" "You want ketchup with that?" I don't want a straw. I want real human moments. I want to see you. I want you to see me. I don't want to give that up. I don't want to be ant, you know?"


E quantas vezes eu já não me prometi experimentar isso, na esperança de encontrar algo mais do que formigas com antenas balançando, vendo tudo passar - embora ciente do fato de que "o maior erro que podemos cometer é achar que estamos acordados quando, na realidade, estamos é dormindo na sala-de-espera da vida!"

quinta-feira, maio 31, 2007

Algum veneno anti-monotonia?

"E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente nem vive
Transformar o tédio em melodia...
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia...
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio
O mel e a ferida
E o corpo inteiro feito um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente, não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria..."


E essa novidade que insiste em vestir a roupa de rotina, e dar uma de bicho papão pra cima da gente. No seu saco, ao invés de prender levadas criancinhas, carrega o peso de nosso desânimo e descrença. E ainda dá o ar da graça em nossos ouvidos: mais um dia se passou, nada aconteceu.

Devia ser deveras mais fácil acordar todos os dias em tempos revolucionários - ou até mesmo de guerra - e ter algo em quê acreditar. Uma causa pela qual lutar.. algo diferente dessa coisa enlatada, preparada: Chê guevara no botton, Chico nas maiores gravadoras, e o amor da sua vida só a te esperar no Bate-Papo da UOL.

Somos livres pra tudo, e descobrimos não querer nada.
O que há de faltar?

Falta graça no trabalho, no estudo, nos amigos, nas conversas, nos debates, nas coisas. Falta um veneno anti-monotonia, um beijo com gosto de café, uma revolução com gosto de sonho, um dia com jeitinho de quero mais.

Falta parar de tentar as palavras certas, pras horas em que o silêncio é tudo o que deveria ser dito.

sexta-feira, maio 25, 2007

Comedida.

O que chama mais atenção, o grito ou o calar?

Quero crer que nunca soube comedir o barulho e sua falta.
Eu e minha paradoxal extroversão, regada de uma baita introspecção.

É.
É?

"..."

quinta-feira, maio 24, 2007

Jardim de flores amarelas.


A rotina sempra acaba por adentrar nossos dias, aquilo que há um minuto era um sonho, neste já é mais do mesmo.
Você dirige buscando coisas, cogitando pular do carro e ir nadar no céu que veio no lugar do mar. Anda buscando vida, sorrindo para pessoas, esperando que em meio à frieza já tão quotidiana alguém seja espontâneo e, irreverente, desrespeite a ordem do arquiteto. Traga à tona todo o caos sentido, que todos fingem acreditar camuflado.
Até que você tropeça, e nas crianças descobre uma casinha, com jardim de flores amarelas e felicidade. Felicidade de quem ainda não aprendeu as artimanhas do mundo ordenado, protocolado, e ... insosso.